VISITANTES

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O que me recordo da Família Morais Cardoso…


1949 2º prémio - Medalha de Prata
A família Morais Cardoso vivia o inverno em Lisboa, no Largo do Mastro e, no início do Verão, viviam no Sobral até ao fim das colheitas, que culminava com a apanha da azeitona, isto nos anos quarenta desde que me recordo e até final dos anos cinquenta.
Tinham grandes propriedades rurais e urbanas, a Casa principal e muitos anexos. Onde se situa hoje o Auditório Municipal era a Adega: vi tanta vez as carroças puxadas por uma junta de bois, ali a descarregar a uva para fabricar o vinho da sua colheita. Ainda hoje é visível no Auditório Municipal o lagar e, na parede, está pendurado um quadro de um prémio de categoria, a nível nacional, dado pela Junta Nacional do Vinho, a um vinho produzido pela Casa Morais Cardoso.
 Núcleo Museológico do Vinho
Onde se situa a Biblioteca Municipal era uma casa de primeiro andar: ali se alojavam os trabalhadores que vinham de fora, a seguir a casa do feitor, por debaixo uma abegoaria e seguia-se uma destilaria de bagaços. Era uma casa agrícola, grande empregadora, tinha em permanência um feitor, um caseiro e um abegão, e todo o ano ranchos de homens a trabalharem na lavoura. A casa principal era ao lado da Câmara Municipal, com a frente virada para a Praça Dr. Eugénio Dias, contornando a Praça da Republica e a Rua 10 de Fevereiro: embora em mãos de outros proprietários ainda mantém a mesma traça.
No Verão, quando a D. Adelaide e a sua filha D. Maria Isabel se acomodavam, era de bom-tom irem cumprimentar a Condessa do Sobral e só de seguida começava a lida. A D. Maria Isabel (Menina Micas) era a orientadora principal. A minha madrinha era contratada para trabalhos de costura, nesse tempo tudo se aproveitava, e por acréscimo lá estava eu…
Era frequente que muitos netos passassem algum tempo de férias, e com eles traziam as suas criadas. Como me lembro da Ludovina e da Maria Lina… Lembro-me do quarto das “criadas” no sótão, em que as camas eram de ferro, já não sei quantas, mas eram algumas. Na casa que outrora tivera ao mesmo tempo três ou quatro serviçais, nessa época só a Beatriz fazia todo o trabalho.
Era a Zezinha, uma das netas, que mais tempo passava no Sobral e, como era da minha idade, era com quem eu brincava. A brincadeira preferida dela era aos “polícias e ladrões”, enquanto eu preferia ler livros da Condessa de Ségur. Lembro-me de ter lido também o “ Pequeno Lord”. Na nossa brincadeira, eu era sempre o ladrão, para me esconder enquanto lia uma ou duas páginas de qualquer história: assim fui lendo todos os livros. Ela tocava piano e eu fazia de espectadora e aplaudia no fim.
O Sr. Manuel Pedro Cardoso, que não conheci, foi Presidente da Câmara do Sobral de Monte Agraço. Ele e a esposa, a D. Adelaide, tiveram três filhos: o Dr. Manuel, advogado, que teve seis filhos, o Dr. João Alberto, dermatologista afamado, era quem geria com a irmã os bens da família e teve três filhos… e a D. Maria Isabel, que não casou.
Com a morte da mãe e dos filhos, os bens foram divididos e a casa de habitação foi vendida. Os herdeiros do Dr. João Alberto, a Drª. Teresa e o Dr. João Pedro, ainda mantiveram por longos anos as propriedades rurais e também os anexos urbanos que herdaram mas, a pouco e pouco, foram vendendo e “doando”. O Pátio de Santo António, que é dentro da vila, no topo da Rua 5 de Outubro, constou-me que tinha sido vendido recentemente; o “Soeirinho”, uma propriedade ( à saída do Sobral na estrada ….. Arruda), ainda está na posse da família Morais Cardoso.
Existem netos do casal Manuel Pedro Cardoso e D. Adelaide de Morais, o que faz que o nome Morais Cardoso ainda seja conhecido no país, mas nenhum se radicou no Sobral. Esta foi uma das mais importantes famílias do Sobral de Monte Agraço, no século XX, a todos os níveis: social, económico e intelectual. Ficarão para recordá-los e perpetuá-los duas ruas, ambas na Urbanização das Bandorreiras: Rua Manuel Pedro Cardoso e Rua Dr. João Pedro de Andrada Morais Cardoso, avô e neto.
Maria Alexandrina

4 comentários:

  1. Amiga Alexandrina
    Por motivo de falta de saúde, só agora vim aqui ver este seu artigo que nos dá conhecimento de mais uma das famílias tradicionais desta terra. Como já várias vezes disse, não sou natural de cá mas gosto muito desta simpática vila. Por isso mesmo fico grata por tudo aquilo que me é transmitido por pessoas que viveram no terreno factos que desconhecia de todo. Obrigada pelo seu empenho.
    Só estranho e lamento que, sendo este espaço um local que proporciona a troca de conhecimentos, usos e costumes da terra, não esteja a ser "aproveitado" pelos sobralenses, que deveriam ter muito orgulho nos seus antepassados e sentirem-se felizes por ainda terem testemunhos vivos que nos consigam transmitir tanta coisa que desconhecemos ...
    Um grande abraço da
    Lourdes.

    ResponderEliminar
  2. Não foi, felizmente, por motivo de saúde que me "demorei" a comentar este novo texto da D. Alexandrina, o qual, mais uma vez, me pareceu muito oportuno e pertinente. Demorei porque quis ver, esquadrinhar com novo olhar,à luz deste texto, o Núcleo Museológico do Vinho da Galeria Municipal. E, feita essa pesquisa,que só hoje de manhã pôde ter lugar, concluo que este texto, pelo menos parte dele, bem poderia ser imprimido, ampliado, emoldurado e afixado na parece da Galeria: é que ficava "bonito" se lá constasse um pouco da história daquele lagar, tal como aqui se relata, da família que o construiu e explorou, e quando, e etc.

    Claro que haveria quem soubesse que as duas ruas de que fala o texto homenageiam a família do ... lagar. Mas é informação, essa como muitas outras, que deveria ser do domínio público. No caso, a parede da Galeria era o local certo.

    Não é meu hábito enviar daqui recados ou lamentos, mas só posso fazer minhas as palavras do último parágrafo do comentário da D. Lourdes. Força Mourinho, e rápidas melhoras.

    José Auzendo

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Luis gonzaga morais cardoso12 de julho de 2017 às 19:03

      Eu sou neto me chamo luis gonzaga morais cardoso filho de manoel pedro morais cardoso

      Eliminar
  3. Estes artigos da D. Alexandrina, além de nos revelarem uma sobralense orgulhosa e sempre atenta ao que se passou e passa à sua volta, mostram-nos como a vida de algumas pessoas de uma comunidade influencia a história dessa comunidade. Por exemplo, ali onde carroças de bois descarregavam uvas é hoje um regalo para os olhos de quem, se calhar, nem sabe que havia juntas de bois…

    E é pena que, como já aqui foi dito, não haja muitos mais sobralenses interessados em aproveitar a oportunidade que têm de enriquecer a história da sua terra e dá-la a conhecer.
    Inês

    ResponderEliminar