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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Destaque 2


Estamos a publicar neste espaço pequenos resumos biográficos de pessoas de qualquer idade que, nascidas ou residentes no Sobral, conseguiram que os seus nomes “saíssem” do Concelho, por algum feito realizado no domínio das letras, das artes, da ciência, do desporto. Se não fosse excesso de pretensiosismo, diria que estamos a cantar “aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”, citando Camões. Mas é isso que desejamos que venha a acontecer… Colabore connosco, escrevendo para sobral.senior@gmail.com indicando-nos o nome e contacto de alguém que julgue merecer integrar esta galeria ou, se for o caso e preferir, enviando-nos a própria biografia.

E o destaque de hoje vai para
 
Luís Martins, saxofonista


Nasceu na M.A.C. em Lisboa, em Dezembro de 1980, filho de António Luís Martins e de Maria Margarida Ribeiro. Oriundo de uma das mais antigas famílias do Sobral, é bem conhecido entre os mais idosos como o Luís Jorge, o neto da Orquídea. Fez todo o percurso escolar, do básico ao secundário, no Sobral de Monte Agraço, onde sempre residiu e reside. O 12º ano repartiu-o por Torres Vedras e Almada.
Tinha começado os seus estudos e prática musicais aos 14 anos, na Sociedade Filarmónica da Ribaldeira. Na Escola Profissional de Almada iniciou, em 1999, o Curso Complementar de Instrumento, saxofone, tendo tido como professores Mário Marques, Hugo Gaito e Armindo Luís. Por falência da EPMA, acabou o curso na ETIC - Escola Técnica de Imagem e Comunicação, em Lisboa, nas classes de saxofone e música de câmara, com o professor João Pedro Silva.
Em 2011, completou a licenciatura em saxofone na Universidade de Évora, classe do Professor Mário Marques.
Ao longo do seu percurso musical tem frequentado vários “Master-classes” - cursos de aperfeiçoamento de curta duração (uma a duas semanas) com professores, ou agrupamentos, de renome internacional: Alberto Roque, José Massarrão, Jean-Yves Fourmeau, James Houlik, Vincent David, Quarteto de Saxofones de Amesterdão, Claude Delange, sendo este Prof. do Conservatório Superior de Música de Paris, e uma das maiores referências europeias em saxofone.
Tem participado, todos os anos, como artista convidado, no Festival Internacional de Saxofone de Palmela. No primeiro, apresentou e interpretou uma composição de sua autoria, de nome “Sax Camaleão”. Participou em workshops de jazz sob a orientação técnica e pedagógica do Hot Club, e promove e orienta, todos os anos, desde 2008 o workshop de jazz de Sobral de Monte Agraço.
Tem vindo a desenvolver projectos de sua autoria, com relevo para os “Saxion”: conjunto musical de três elementos, interpretando saxofone, acordeão e contrabaixo. Integra-se no género conhecido como “músicas do Mundo”, mas interpreta, também, reportório próprio. Actuaram no Cine-Teatro do Sobral em Abril de 2008, com um convidado especial, Emanuel Soares. Em http://youtu.be/N20BYDbGBws encontra uma interessante entrevista, com acompanhamento musical, feita a Luís Martins por Amadora TV, a propósito de uma actuação dos Saxion naquela cidade, onde ele afirma a sua “pertença” ao Sobral de Monte Agraço. Em Julho de 2011, Luis Martins actuou duas vezes no Sobral, nas “Noites na Praça”, uma com os Saxion mais Sofia Henriques como convidada, e outra integrando um quarteto de saxofones, um outro projecto de sua autoria.
Participa frequentemente, como instrumentista, em vários projectos como a Big Band Lisbon Swingers, o Ensemble de Saxofones de Palmela do Conservatório Regional de Palmela e a Big Band Humanitária. Esta é uma banda da Sociedade Filarmónica Humanitária de Palmela, onde Luís Martins deu aulas durante 6 anos. em 2012, participou no musical "Judy Garland - O fim do Arco-íris", de Filipe la Féria, no Teatro Politeama.
Lecciona Saxofone na Academia de Música de Alcobaça e no Sobral de Monte Agraço, onde dá aulas particulares de saxofone a alunos individuais. É músico da Banda da Força Aérea desde Fevereiro de 2003, Banda que actuou no Cine-Teatro do Sobral em Maio de 2012. Poderá descobrir mais sobre Luís Martins em www.myspace.com/luisribeiromartins e em www.myspace.com/projectosaxion.
a ideia, esperemos que se concretize, de os Saxion regressarem ao Cine-Teatro do Sobral lá mais para o fim do ano. Ao menos isso merecemos. E o Dr. Luís Martins merece-nos muito mais…Entretanto, realiza-se no próximo dia 21 de Outubro, no Cine-Teatro, o Concerto de Encerramento da 5ª Edição do Sobral Jazz – Workshop de Jazz – 2012.

José Auzendo


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Hoje vi um Portugal lindo e feliz…

As fábricas trabalhavam em pleno, os operários saíam do trabalho animados e bem-dispostos, porque sabiam que o salário que auferiam era suficiente para sustentar a família e dar educação aos seus filhos. Vi professores a dar aulas alegremente aos nossos meninos, sem o “papão” das avaliações… E os professores contratados tinham a certeza de não serem despedidos.
Vi os funcionários públicos sem os subsídios de Férias e de Natal cortados, e sem o horror dos “disponíveis”. Os pensionistas a quem não tinham sido congeladas as reformas também iriam receber os subsídios que lhes tinham sido “roubados”.
Vi os idosos a serem bem tratados pelos familiares, e a não serem abandonados em hospitais. Os casais a viverem em completa harmonia e amor, não havia violência doméstica.
Vi as mamãs a seguir o crescimento dos seus bébés durante dois anos, com licença de maternidade. As crianças brincavam alegremente em jardins, numa algaraviada que lembrava o chilrear de passarinhos a escolherem o melhor lugar nas árvores, numa noite quente de Verão. As mães descuidadamente liam ou conversavam, porque não havia predadores, a pedofilia tinha acabado.
Vi os campos cultivados, aos vinhedos verdejantes acrescentava-se o restolho dourado de um trigo acabado de colher. As árvores de fruto estavam carregadas de mais diversas qualidades de frutos, para quê a necessidade de se importar fruta do estrangeiro? Tínhamos fruta nossa que chegasse.
Vi os jovens a entrarem com facilidade para as faculdades, sem a preocupação dos números que os deixam frustrados: escolhiam o seu curso e, quando o acabavam, não precisavam de emigrar. Portugal, além de ser um lugar para velhos, também era um lugar para jovens. Tinham onde trabalhar, desenvolviam-se as artes, a escrita e a ciência: juventude é igual à dos outros Países, precisa é de oportunidade.
Vi que a corrupção tinha acabado, os contratos para obras, autoestradas e outros eram legalmente elaborados, e quem saía deles beneficiado era o País, não havia intermediários a encher os bolsos. A Troika era uma palavra desconhecida dos portugueses, nem sequer era nossa, não vinha no nosso dicionário, o melhor era ignorá-la.
De repente ouvi um barulho, acordei. Era a minha filha que se preparava para mais um dia de trabalho, com a certeza de que não iria receber os 13º e 14º meses. Corri à janela e olhei os campos até onde a minha vista podia alcançar, e vi tanto terreno por cultivar. Ainda incrédula liguei a televisão e o que ouvi acordou-me: um milhão e meio de pessoas, em quarenta cidades portuguesas, tinham protestado contra as medidas do Governo, que manda emigrar os jovens licenciados e que cada vez mais obriga os portugueses a sacrifícios. Que está em estudo o aumento da Taxa Social Única. Que a Troika nos fiscaliza e nos trama cada vez mais. Que a corrupção existe. Que um homem matou à facada a mulher, por ciúme ou malvadez. Que um vizinho e amigo da família abusou sexualmente de uma criança. Não ouvi mais, o meu pobre coração não aguenta. Desliguei a televisão e tomei uma resolução: deitei-me…Eu queria voltar a sonhar…
Na realidade só sonhando se podia ter um país como o do meu sonho… mas digam-me não é tão bom sonhar!


Maria Alexandrina

sábado, 22 de setembro de 2012

Encontro de História subordinado ao tema Território, Quotidiano e Sociabilidades


No próximo dia 29 de Setembro de 2012 , no Auditório Municipal de Sobral de Monte Agraço, terá lugar o Encontro de História subordinado ao tema Território, Quotidiano e Sociabilidades.
Esta iniciativa conta com a organização do Município de Sobral de Monte Agraço, em parceria com Associação para os Estudos Históricos e Interdisciplinares (PAEHI) e o Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica (CEHR-UCP).

As comunicações que serão apresentadas darão um forte contributo para aprofundar o conhecimento da história da região.

As inscrições, gratuitas,  para este Encontro poderão ser efectuadas até 27 de Setembro no Centro de Interpretação das Linhas de Torres (Praça Dr. Eugénio Dias, SMA/  tel.: 261 942 296/ cilt@cm-sobral.pt) ou com o Dr. António Filipe (encontrohistoria.sma2012@gmail/ 912062425).
 
O programa está disponível através do link:

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Destaque 1


Estamos a publicar neste espaço pequenos resumos biográficos de pessoas de qualquer idade que, nascidas ou residentes no Sobral, conseguiram que os seus nomes “saíssem” do Concelho, por algum feito realizado no domínio das letras, das artes, da ciência, do desporto. Se não fosse excesso de pretensiosismo, diria que estamos a cantar “aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”, citando Camões. Mas é isso que desejamos que venha a acontecer… Colabore connosco, escrevendo para sobral.senior@gmail.com indicando-nos o nome e contacto de alguém que julgue merecer integrar esta galeria ou, se for o caso e preferir, enviando-nos a própria biografia.

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Vanessa Rodrigues - autora do livro
Chamo-me Maria Amália Vaz de Carvalho”

Vanessa Roque Rodrigues nasceu em Março de 1980, filha de José Inácio Rodrigues e Suzete Rodrigues; cresceu e estudou no Sobral, e licenciou-se pela Universidade Nova de Lisboa em Línguas e Literaturas Modernas. Surpreendeu tudo e todos ao desistir de uma carreira no ensino para se dedicar aos livros. Iniciou-se profissionalmente no Grupo Editorial Pearson, a editar manuais para o ensino da língua inglesa; actualmente, integra a equipa editorial das edições escolares do Grupo Santilhana. Com uma pós-graduação em Edição, encontrou no mundo dos livros a sua paixão.

Em Outubro de 2011, com ilustrações de Diana M. Marques, publicou uma biografia de Maria Amália Vaz de Carvalho. Trata-se de um trabalho integrado numa colectânea juvenil promovida pela “Didáctica Editora”, que inclui obras idênticas relativas a umas dezenas de personalidades “de âmbito universal”, entre as quais Agatha Christie, Einstein, Almada Negreiros, Eusébio, Fernando Pessoa, Júlio Verne, Luísa Todi, Mozart, Saramago, Shakespeare, Simon Bolívar, Vasco da Gama, Wagner…

Lemos o livro como se estivéssemos a ler uma autobiografia escrita pela própria…depois de morrer. Ou seja, é como se fosse a biografada a conduzir-nos pelos aspectos mais relevantes da sua vida, no domínio familiar, social, político e literário. O que implicou que a autora, a nossa Vanessa, se tivesse que “meter” na pele e na mente da biografada, para nos ir transmitindo os episódios narrados com as palavras, o ambiente e os sentimentos que a própria teria usado se tivesse sido ela a escrever.

Não vamos resumir o livro, ele está à venda, é barato, pequeno e de leitura fácil. Maria Amália Vaz de Carvalho morreu em 1921, aos 74 anos, tendo sido casada com o poeta Gonçalves Crespo. Tem nome em ruas de várias cidades, é patrona da Escola Secundária com o seu nome em Lisboa e de um prémio literário anual instituído pela Câmara Municipal de Loures, Concelho onde viveu muitos anos. Foi autora, entre outros, de Uma Primavera de Mulher, poema, e dos livros Vozes do Ermo, Crónicas de Valentina, Serões do Campo…

Foi escritora, poeta e jornalista, tendo-se envolvido activamente na defesa de “uma nova conceção de mulher que, com o triunfo do liberalismo, lentamente se afirmava”; denunciou claramente que “a primeira coisa que a mulher não aprende, e que devia aprender, é a pensar…” (pág. 49). E lamentava o que continuou a passar-se: “Às crianças impunham-se conteúdos que nenhum filósofo ou escritor consideraria de utilidade; (…) esses métodos verdadeiramente bárbaros tiravam a vontade de estudar, não incentivavam à procura de mais saber nem alimentavam a imaginação, algo que tanto admiramos na infância” (pag.46).

Assim escreveu Vanessa Rodrigues, glosando e reescrevendo o pensamento da que foi uma das mulheres mais marcantes dos finais do século XIX em Portugal. Assim escreve agora Vanessa Rodrigues, testemunhando para nós, neste Blogue, os sentimentos que experimentou:


Os livros sempre foram uma paixão para mim. Para os meus pais, que se viam forçados a alimentar-me de livros em todos os aniversários e Natais, a leitura era certamente um vício. Este gosto — vamos chamá-lo assim — esteve sempre patente em todas as escolhas que fiz: académicas, profissionais ou de puro lazer. Contudo, nunca pensei que o convite para escrever um livro surgisse um dia. Não foi por acidente, mas quase. Tal como eu, outros colegas de licenciatura enveredaram pelo mundo do livro (que abrange áreas tão diferentes como escrever, rever, ilustrar ou imprimir). Um deles, sabendo do meu gosto e experiência em lidar com crianças e jovens, reconheceu em mim as qualidades - ou melhor, as competências - necessárias para o efeito.
Recebi o convite com surpresa e orgulho. De entre as personalidades que me foram dadas a escolher, optei pela Maria Amália Vaz de Carvalho por não saber nada sobre a mesma. agora, porque não partir do zero, sem ideias pré-concebidas? E aceitei o desafio em pleno estado de pânico, confesso! Foi uma experiência deveras interessante. Comecei por pesquisar online, depois passei para os livros. Mas o desafio maior foi conseguir transmitir o ambiente em que Maria Amália Vaz de Carvalho viveu na fase final da sua existência: a doença, a morte, a desilusão política empurraram-na para um verdadeiro precipício físico e emocional muito anunciado.

Maria Amália foi uma mulher do seu tempo, muito atual em muitas das suas posições, mas que não conseguiu acompanhar o turbulento mas borbulhante início do século XX.V.R.

Parabéns Vanessa. Ficamos à espera do segundo livro.
José Auzendo

domingo, 16 de setembro de 2012

FESTAS E FEIRA DE VERÃO DE 2012


Estamos em Setembro e quase no fim do Verão e com esta época chegaram as tradicionais Festas e Feira de Verão em Sobral de Monte Agraço.
Para quem frequenta estas festas desde há mais de quatro décadas, saberá que as festas actuais nada têm a ver com as de outrora. Desapareceu o encanto, a quase magia que existia no ar … o simples passear na Avenida nos trazia alegria!
Mas como os tempos mudam, a juventude é outra e tem outras exigências e gostos, tudo é agora diferente. E nós, os do passado, temos que tentar acompanhar as mudanças e adaptarmo-nos aos novos tempos. É tudo bastante diferente, mas há muitas coisas que teimam em persistir …
O desfile dos cavalos e charretes, o passeio dos automóveis antigos, a noite de Fados na Praça ex-libris do Sobral, por enquanto ainda se vão mantendo e espero que continue, pois são tradições que não se devem deixar morrer. Também não faltam os carrocéis para a diversão da pequenada (e não só) … As tradicionais vendas de artesanato e produtos da região, deixaram de ter a sua localização na avenida principal e passaram para a recém renovada praça 25 de Abril.
O Ourives
A Peixeira
O antigo Cortejo Histórico-Etnográfico, rico pelos seus vestuários, os cavalos com os seus arreios bem compostos, transportando os cavaleiros e guerreiros de outrora, mostrando assim ao povo de agora como era a vida no passado, os reis e rainhas, as aias, todo um conjunto da corte, da plebe e do clero, seguido muitas vezes pelo povo de então, a terminar com uma banda de música normalmente de renome, tudo isso foi substituído por um outro cortejo mais modesto mas não menos importante, mostrando apenas os usos e costumes da terra. Nada de riquezas. As profissões, os seus trabalhadores, as vendedoras e as peixeiras com os seus pregões, tudo isso nos foi mostrado no cortejo deste ano. Até o limpa-chaminés, todo mascarrado … O ourives com a sua maleta do outro transportada numa bicicleta … Em anos trasactos também houve o bodo, que este ano não se fez.
O amolador
O Limpa Chaminés
Chegou a banda de música, dia 10 cerca das 10 horas da manhã. Uma belíssima banda que nos proporcionou concertos de boa música. Em anos que já lá vão vinham duas bandas e normalmente à tarde e à noite tocavam “ao despique”, como se dizia na época.
Alguns grupos musicais e artistas da actualidade também foram convidados para actuar nestas festas. Tem que haver actuações para todos os gostos e faixas etárias.
A tarde ou noite de acordeão em que se juntavam muitos acordeonistas e cada um tocava duas ou três músicas, também essa deixou de existir. Eram tardes e noites em que a praça do Dr. Eugénio Dias se enchia de gente amontoada, que para se ver qualquer coisa tínhamos que andar de um lado para o outro, pois as cabeças eram tantas que por vezes não víamos nada.
Mas o grande forte destas festas tradicionais são as touradas e as pamplonas. As pessoas vibram com esta tradição. Pessoalmente não gosto destas manifestações mas respeito quem as aprecia.
O grande baile que marcava fim de festa de antigamente em que os cavalheiros iam vestidos a rigor de fato e gravata e as senhoras com vestidos de noite, era a parte da festa mais esperada para se poder fazer as “passagens de modelo”. Nesta semana as jovens tinham sempre vestidos novos e os rapazes também se aperaltavam todos para não fazerem má figura.
Que o ainda que resta da tradição destas festas não se vá perdendo a pouco e pouco, pois a continuidade das tradições ajudam a fazer a história de um povo!

Lourdes Henriques

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

As festas e Feira de Verão

 
Nos meus tempos de criança e mesmo jovem, as Festas e Feira de Verão de Sobral de Monte Agraço eram tão vividas na minha casa, como se de uma coisa nossa se tratasse: era como que uma firma quase nossa, sem fins lucrativos, diria com grandes prejuízos. Voluntariamente, quase religiosamente, viviam-se as festas o ano inteiro lá em casa. Isto nas décadas de 40 e 50, desde que me recordo.
Filarmónica 1º- Dez, do Montijo (foto da net)
Havia uma arrecadação cedida pela Câmara, onde se guardavam todos os haveres das Festas: o inventário estava elaborado na cabeça do meu padrinho, que às vezes andava preocupado porque faltava uma fronha de almofada. Aquele cheiro característico do festão, com o de tintas e bafio, muitas vezes ainda o sinto no meu imaginário...Dentro de uma grande arca, estavam devidamente acondicionados cobertores, almofadas, lençóis e fronhas, necessários para se fazerem as camas dos músicos das Bandas. As Bandas dessa época vinham de Almada, do Seixal, do Montijo: a Incrível Almadense, Sociedade Filarmónica União Seixalense, a Sociedade Filarmónica 1º- Dezembro, do Montijo. Naquela altura…era longe, muito longe… e os músicos tinham que dormir uma noite ou duas no Sobral… Hoje as Bandas vêm do Norte em luxuosos autocarros, que regressam para as suas terras após o concerto.
A camarata era na Escola primária: tiravam-se as carteiras e abriam-se as “tarimbas” (camas de madeira, com lona) e lá se faziam as camas e eram tantas vezes feitas quantas as bandas que nesse ano viessem de fora. Nessa época, o Sobral carecia de água, só uma hora por dia nos era possível obtê-la abrindo a torneira. Para que os músicos a tivessem para a sua higiene, armazenava-se em bilhas de barro, que se iam encher ao chafariz. Percebe-se que essa iniciativa partia da minha casa: todos os dias das festas e durante anos e anos. O mestre (maestro) da banda e a sua esposa auferiam de outro estatuto e os meus padrinhos dispensavam a sua cama para os hóspedes pernoitarem, improvisando para os donos da casa uma cama no chão, no meu quarto.
Festas de 2007(foto da net)
Todos os anos se remendavam as bandeiras de pano que estavam rotas pelo uso: aos desbotados vermelhos, verdes e amarelos eram acrescentados panos novos das mesmas cores, mas a diferença era grande…Só que, no cimo dos mastros, quem é que via as diferenças? O Carrasca lá contratava os homens e eram feitos os buracos nos passeios, para se erguerem os paus em que se desfraldavam as garridas bandeiras. Não faço a ideia certa das bandeiras que eram remendadas, mas eram sempre perto de cem. E todos os anos se voltava a esta rotineira tarefa. Julgo que às vezes as bandeiras eram só remendos.
foto da net



As Festas e Feira eram idênticas às de hoje, tendo em conta o tempo em que decorrem e até o espaço. Na feira havia barracas de bugigangas, carrossel, e umas barracas que, com o tempo, se perderam: as chamadas barracas de tiro, onde meninas atraíam os homens para darem um tiro. Nunca percebi muito bem como eram, porque não nos era permitido o acesso. Na praça havia a célebre quermesse abrilhantada por um grupo de gentis meninas de bem. Bandas de música, touradas, ciclismo e nuns anos até hipismo eram as variantes da festa. Além do cinema e do célebre baile de fim de festas, onde debutavam a maior parte das raparigas.
Havia uma Comissão em que cada um tinha a sua função, mas desde o peditório pela vila e pelas aldeias e em todos os mais pequenos detalhes estava sempre presente um homem, de seu nome Matias Flor, meu padrinho, que já aqui recordei. Não se viveu tudo isto em poucos anos, na minha casa; desde que tomei o conhecimento suficiente para reparar nestes pormenores, posso afirmar que os vivi continuadamente, durante mais de vinte cinco anos.
O Sobral era uma vila pequena e o acontecimento festivo de maior relevo do ano era as Festas e Feira de Verão. Os sobralenses que viviam fora vinham assistir às “suas festas”. Os parentes e amigos eram convidados, a mesa era farta e as casas enchiam. Era até habitual verem-se rapazes e raparigas de fora a colaborarem na quermesse. A Festa era de todos.

Maria Alexandrina

domingo, 9 de setembro de 2012

Belo Marques


Em Maio de 1993, o Município do Sobral prestou uma homenagem pública ao maestro Belo Marques. No programa da homenagem diz-se que, em 14 de Julho de 1963, foi estreada aos microfones da Emissora Nacional a Canção do Sobral, com letra de Ivo Reis Melo, interpretação de Maria Fernanda Soares e música de Belo Marques. Para além desta informação, o programa não diz, nem deixa entender, qual a razão de ser da homenagem. Sabe-se que Belo Marques é nome de uma rua no Sobral; sabe-se que nasceu na região da Batalha, que viveu em muitos locais um pouco por esse mundo fora, e está escrito que, retirado da vida pública, construiu uma casa na Arruda, onde morreu. Casa essa que, está escrito também, foi paga com o dinheiro ganho com a então muito conhecida canção “Alcobaça”, de cuja música o maestro foi autor.

Esta canção teve um grande sucesso popular em Portugal na década de 50/60 do século passado; e mesmo no estrangeiro: garantiu à intérprete, Maria de Lurdes Resende, a vitória no “Prémio da Canção de Sucesso”, realizado em Génova, Itália, em 1955.

Se a “Canção do Sobral” não teve este sucesso, isso não impediu que Belo Marques seja, ainda hoje, uma pessoa muito recordada no Concelho. Muita gente se lembra dele e a principal razão é esta: desde que se retirou e até ao seu último dia de vida ele viveu de facto, e ao contrário do que está escrito, no Sobral de Monte Agraço. Primeiro na Rua Miguel Bombarda, mesmo ao lado do quartel dos Bombeiros, e depois no Casal de Santa Rita, nas Pontes de Monfalim. Casa que, de resto, foi comprada por “400 contos”, dizia ele, e não construída. Corrijo também a data do óbito, que ocorreu não em 1986, mas no dia 27 de Março de 1987. Foi sepultado no cemitério de Santo Quintino, conforme o atesta o documento junto.

Não pretendo fazer aqui uma biografia de Belo Marques: é fácil encontrá-la na net, no livro que escreveu, ou no programa da citada homenagem; por outro lado, os familiares mantêm uma página no “facebook” em nome dele, onde inclusive fizeram alusão aos 25 anos da sua morte (Maestro Belo Marques). Entendi apenas fazer aqui as correcções que precedem, a que junto alguns elementos que poderão ser menos conhecidos da sua vida e obra.

Começo pelo livro. É um livro de poemas, de nome Post-Scriptum, editado pela Portugália Editora não sei quando, mas em data posterior a 1981, ano em que o Maestro participou no programa da RTP “E o resto são cantigas”. Nesse programa, Belo Marques disse da pena que tinha de morrer sem ver os seus poemas publicados. O editor ouviu, gostou dos dois poemas que então foram lidos, e publicou o livro. Como a foto anexa exemplifica, foi um livro oferecido a várias pessoas no Sobral, emsessãohabitual no Café Central, de que era frequentador regular.

Embora seja conhecido como compositor de canções populares, há também algumas, fados em especial, de que é autor da música e da letra. Um dos mais conhecidos é “Grão de arroz”, cantado por Amália Rodrigues, que pode rever em http://www.youtube.com/watch?v=rO_Kk4Cmn4o. Compôs também música para filmes, tais como Rosa do Adro e As Pupilas do Senhor Reitor. Todavia, o objectivo inicial da vida de Belo Marques era ser compositor de música sinfónica. Esteve alguns anos em Moçambique, onde estudou a música negra. Em 2009, disse “a neta de Belo Marques, Guiomar, que ele compôs uma peça chamada Fantasia Negra, que foi tocada em público uma única vez. Ela está convencida de que esta é a grande obra do maestro. Não era certamente por “Alcobaça” que ele gostaria de ser lembrado (…)”. Pode ler isto e mais em http://llindegaard.blogspot.pt/2009/06/musica-negra-de-belo-marques.html.

Durante anos, no início da sua vida musical, Belo Marques era conhecido como o “Rapaz do violoncelo”, na tertúlia do Café Gelo, no Rossio. Os últimos anos de vida não terão sido muito entusiasmantes. Morreu na sequência de uma queda que deu quando caminhava, a pé, frente aos Correios do Sobral.

José Auzendo

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

José Vieira - Parte 2


O actual Campo da Feira
A bola, jogar futebol foi sempre uma das minhas paixões. Foi a única coisa por que o meu pai me bateu, porque naquela época querer jogar futebol era quase um crime. Mas eu não desisti, sempre que podia lá estava no Campo da Feira a jogar. No Campo da Feira, uma vez por mês, ao Domingo, havia a feira do gado. Vendiam-se vacas e bois, cavalos, burros, cabras e ovelhas, borregos, além das barracas de comes e bebes. E à segunda-feira lá estávamos nós, com um carrinho de mão, umas pás e vassouras para deixar o campo pronto para os treinos e jogos. Comecei a jogar no Monte Agraço Futebol Clube, a extremo direito. O primeiro jogo que fiz tinha 14 anos e foi contra a Merceana. Mas participei em torneios em que entraram equipas de adeptos do Benfica, Sporting e Belenenses…Durante a tropa, joguei em diversos clubes de Lisboa: o Vitória de Lisboa, o Cascalheira e ainda cheguei a ir aos treinos no Belenenses…

Acabada a tropa, voltei ao Monte Agraço e, depois, joguei no Alcobaça Comércio e Indústria, que disputava o Campeonato Distrital de Leiria: recebia 100$00 por cada jogo, mais despesas de viagem e alimentação no dia do jogo…Como a barbearia tinha de estar aberta ao Domingo, pagava 50$00 a um barbeiro de Lisboa para ficar a trabalhar nela, enquanto eu ia para Alcobaça. Ainda joguei futebol com o sistema antigo: um guarda-redes, dois “backs” (defesas), três “halfs” (médios) e cinco avançados…

Além disso, fui bombeiro durante 44 anos, desde os 22 aos 67, na Associação dos Bombeiros do Sobral. Estes foram fundados em 1913, cinco anos antes de eu nascer. Vi chegar à corporação o primeiro carro de combate a incêndios com motor, um Ford. Os outros eram puxados à mão, com umas espias enroladas puxadas à mão. Éramos uma guarnição de 21 pessoas. Nessa altura quase não havia incêndios nas florestas, no mato; os fogos eram quase só nas casas, nas eiras, nos palheiros…Para combater os incêndios não tínhamos farda; a farda era para as festas, para as recepções oficiais, para os desfiles…

E fui músico, ainda da primeira Banda Filarmónica do Sobral, a da Câmara Municipal, fundada pelo Dr. Sena Paiva, Presidente da Câmara. Aprendi música com o meu cunhado, o Serreira da Barbearia, que também era músico. Andava a aprender a tocar saxofone soprano, mas um dia faltou o baterista quando tínhamos que ir tocar a Martim Afonso, e o meu cunhado propôs-me como baterista, no momento para desenrascar, mas depois fiquei… Fui músico durante vários anos.
Não participei muito nas Festas do Sobral porque tinha que trabalhar na barbearia, essa era a altura em que havia mais clientes. Mas às vezes era desafiado pelos amigos a ir tourear as vacas nas touradas, quer das Festas, quer das que os Bombeiros organizavam para angariar dinheiro: só vinha um toureiro de fora, para coadjuvar a tourada, e o resto tinham de ser os homens da terra a fazerem a faena para o público.

Pertenci também a um “Trinta e um”. Para quem não saiba, um “trinta e um” era um grupo de trinta e um homens que se uniam por um acordo de cavalheiros e se comprometiam a ajudar-se mutuamente em caso de doença ou outra calamidade. Por exemplo, se algum dos do grupo adoecia e não podia ganhar para sustentar a família, os outros trinta estavam obrigados a dar ao necessitado 1$00 por semana, enquanto durasse a doença. Se houvesse dois doentes…eram 2$00. Não sei explicar porque é que o número de “sócios” era de 31, mas era essa a prática. Que me lembre e tenha sabido, havia um outro “trinta e um” aqui no Sobral, mais velho que o nosso. A contribuição de cada um só era dada quando havia doença, não havendo doença não se contribuía, não se juntava. Havia uma escala, e um dos não doentes percorria todos os elementos do grupo, recolhia o dinheiro e entregava-o em casa do necessitado, enquanto a necessidade se verificasse. Claro que se verificava se a necessidade era mesmo real e não inventada… Este era, na altura, o único apoio que as pessoas tinham se estavam doentes…

Como são diferentes as coisas, hoje. Mas estas são algumas recordações do que têm sido os meus 94 anos de vida. Uma vida cheia de coisas boas e outras menos boas, mas uma vida cheia. Não sei como vai ser daqui em diante, nem quanto tempo ainda viverei. Ser bombeiro durante quase meio século marcou muito a minha vida. Daí que tenha, neste momento, um grande desejo: poder assistir às comemorações dos 100 anos dos Bombeiros do Sobral, no dia 7 de Julho de 2013.

José Vieira