VISITANTES

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

França Borges, outro Sobralense ilustre


Mesmo em frente à Igreja da vila, existe uma pequena rua, de casas baixas, que não serão mais que cinco, que tem o nome de Rua França Borges. Numa dessas casas, no século XIX, nasceu um Sobralense ilustre; posso mesmo ir mais longe, um Português ilustre. Na casa mesmo na esquina, contornando a Rua Heróis da Bélgica, nasceu a 10 de Janeiro do ano de 1871, António França Borges, filho de António Ribeiro Borges e de Cândida Borges França. Estudou no Colégio Brasileiro e na Escola Nacional. Foi funcionário público da Fazenda em Sobral de Monte Agraço.

Jornal O Mundo
Foi um jornalista importante, dando a sua colaboração a muitos jornais, destacando-se a Vanguarda e o Combate, onde expandia as suas ideias republicanas. Em Sobral de Monte Agraço, colaborou em 1894 no jornal Defeza de Sobral de Monte Agraço e, em Torres Vedras, colaborou no jornal Neófito. De salientar que no ano de 1894 havia um jornal em Sobral de Monte Agraço. Foi fundador, no ano de 1900, e director do jornal O Mundo, onde se manteve até morrer. A “Proclamação” que foi o primeiro documento oficial do Governo Provisório da República Portuguesa, em 1910, foi o Mundo o primeiro jornal a publicá-la. António França Borges lutou sempre contra a ditadura franquista no tempo da monarquia.
Como jornalista republicano dos mais importantes na sua época, foi perseguido e preso, por abuso de liberdade de imprensa, mas a justiça nunca o condenou. Por retaliação, é enviado para a Fazenda Pública de Sintra e, mais tarde, deportado para Vila Real de Santo António. Em 1908 exila-se em Espanha depois de sair da prisão. Pertenceu ao Partido Republicano Português e mais tarde ao Partido Democrático. Foi iniciado na maçonaria em 1901, na loja Montanha, com o nome simbólico de Fraternidade. Foi deputado ainda durante a monarquia e também já depois da implantação da República, em 1911. Foi Presidente da Associação do Registo Civil. Era casado com Amélia França Borges tendo esta pertencido à Liga Republicana de Mulheres Portuguesas. Esta Liga fundou a Revista “A Mulher e a Criança” que era constituída por mais de mil associadas, que formavam a vanguarda revolucionária do movimento social, no intuito da emancipação da mulher. Em 1909, os corpos gerentes da Liga e da Revista eram Ana Castro Osório, Adelaide Cabete e Carolina Beatriz Ângelo, Amélia França Borges, entre outros nomes importantes.
França Borges morreu de tuberculose em Davos-Platz, na Suíça, em 5 de Novembro de 1915; deixou a sua viúva com três filhos menores. As cerimónias fúnebres foram orientadas pelo ministro em Berna, Dr. António Bandeira. Os restos mortais chegaram a Lisboa dias depois, e estiveram em câmara ardente, na redacção do Mundo. O funeral realizou-se no dia 19 de Novembro para o cemitério do Alto de S. João, em Lisboa.
Tinha publicado alguns trabalhos como “O Combate”, panfleto em colaboração com Heliodoro Salgado; “A Imprensa em Portugal - Notas de um jornalista” e “A Razão de um padre. O bom senso do cura Meslier”. Sebastião Magalhães de Lima, advogado, escritor, político e jornalista da época de França Borges, afirma no final de um texto que lhe dedicou, no ano de 1928: “ A coerência tornou-se uma aberração. Não compreendem os homens do nosso tempo que se possa servir uma ideia com dedicação e desinteresse. E essa qualidade, hoje rara, raríssima, inconcebível, para os judeus da finança, foi a suprema virtude de França Borges.” Correspondeu-se com Afonso Costa, com quem trocou diversa correspondência, a qual foi estudada pelo historiador A. H. Oliveira Marques (1933/2007).
Na Praça do Príncipe Real, na freguesia das Mercês, existe um jardim com o nome de França Borges, onde se destaca uma estátua com a sua esfinge e com a República segurando o diário” O Mundo “; gravado pode ler-se “ Do seu trabalho hercúleo/Surgiu a República/Consagremos o lutador.” Francisco Grandella homenageou-o dando o nome de França Borges a uma Escola primária construída a mando dele, no Nadadouro, concelho de Caldas da Rainha. Na Quinta da Piedade, na Póvoa de Santa Iria, existe uma rua com o seu nome. Na sua casa em Sobral de Monte Agraço, ainda hoje pertença da família, pode-se ver na parede principal, virada para a Praça da República, uma lápide em sua homenagem, produto de uma subscrição feita pelos sobralenses, que sempre me encantou desde criança, possivelmente por não haver outra na vila… 


Maria Alexandrina Reto

3 comentários:

  1. Se se consultar o arquivo deste blogue, ver-se-á que, já na segunda quinzena de Agosto se escreveu sobre França Borges, este Sobralense ilustre. E logo aí, em comentário, a D. Alexandrina anunciou que tinha quase pronto um texto sobre ele. Também se poderá ver que a D. Lisete aproveitou para falar ainda num outro França Borges, creio que sobrinho do “nosso”, o General (fascista, porque não dizê-lo?) França Borges, de que muitos nos lembramos como Presidente da Câmara de Lisboa, e também da de Torres Vedras, estou em crer.”Fascista”, sim, mas pelos vistos muito popular no Sobral e amigo de muitas pessoas da Terra.

    Anoto isto só para clarificar eventuais dúvidas e “separar as águas”, se me é permitida a presunção. É que acerca do França Borges de que trata a D. Alexandrina, eu quero aqui transcrever a parte final de um artigo, assinado por João de Macedo Paraíso, publicado no Jornal “A Hora” em finais de 1960: ele foi “um dos maiores jornalistas, cuja flamejante pena e espírito cintilante, contribuiu mais que as armas para a proclamação da República Portuguesa”. É obra.

    Agradeço ao Sr. José Vieira ter guardado religiosamente este exemplar do Jornal, totalmente dedicado ao Sobral e que, ainda sobre o funeral de França Borges nos diz, no mesmo artigo, que “milhares de pessoas desfilaram perante o cadáver, tendo ali ido pessoalmente o Presidente da República, Dr. Bernardino Machado”. É um Sobralense ilustre que era obrigatório recordar. Agora e sempre.

    José Auzendo

    ResponderEliminar
  2. Obrigada mais uma vez amiga Alexandrina por mais um capítulo pormenorizado da história desta Vila.
    Um beijinho da amiga
    Lourdes.

    ResponderEliminar
  3. Por acaso sabem dizer se há descendentes vivos de França Borges?
    Sou técnico da Divisão dos Cemitérios de Lisboa e gostava de obter essa informação. Muito Obrigado
    licinio.fidalgo@cm-lisboa.pt

    ResponderEliminar