Pero Negro é uma aldeia edificada numa suave encosta
circundada por pequenos montes, virada para nascente onde o sol bem
cedo a visita tornando o lugar abrigado e acolhedor. Pertence à
freguesia da Sapataria e ao concelho do Sobral do Monte Agraço.
Consta que um dos seus primeiros habitantes se chamava Pedro, e como
antigamente a Pedro se chamava Pero e por ser de cor negra, daí o
nome de Pero Negro. Faz sentido, mas será que foi assim?
Lugar que no início do século XX era considerado de
algum desenvolvimento económico e comercial, sendo as suas
principais referências a existência de armazéns de vinhos,
mercearias, cereais e materiais agrícolas e também a existência de
um lagar de azeite, bens que se destinavam ao abastecimento das
populações de uma parte do Concelho de Mafra e outra parte do
Concelho do Sobral incluindo a sua sede, dando assim emprego a muitos
dos seus habitantes.
Digna de visita, tem a Capela de Nossa Senhora do
Desterro. A sua construção é simples, mas o seu interior muito
bonito. Segundo consta a sua edificação teve início no século
XVII. Os festejos em honra da Padroeira têm lugar no 3º
fim-de-semana de Agosto, prolongando-se pela semana fora.

A nível histórico é de salientar a existência de uma
quinta com um vasto casario que na época (e estamos a falar em
meados do século XVIII) era chamada a Quinta do Barão de Manique.
As suas casas são de campo mas com nobreza, com espaçosas salas,
compondo-se a frontaria do edifício principal de magníficas janelas
e portas com cantarias de alvíssima pedra lioz, ainda hoje parecem
novas. Nesta quinta, em 1810, o Marechal Sir Arthur Wellesly instalou
o seu quartel-General e a partir daí comandou as tropas
luso-britânicas durante o tempo em que ocuparam a defesa das linhas
de Lisboa, hoje conhecidas como linhas de Torres Vedras. Em 1931, a
Comissão de História Militar mandou colocar uma lápide evocativa
do facto na fachada do edifício principal, tal com se pode ver
através da foto. Mais tarde essa mesma quinta passou a ser conhecida
como Quinta dos Freixos, supostamente por no seu magnífico pátio
com assentos de pedra se encontrarem entre outras árvores de grande
porte frondosos freixos centenários que lhe conferem grande beleza.
Presentemente parte do rés-do-chão do edifício principal é
utilizado como jardim-de-infância. O restante casario foi restaurado
e transformado pelo último proprietário, Sr. Américo Vidinha, já
falecido, em habitações onde residem mais de uma dezena de
famílias.

Existe também a estação do caminho-de-ferro da linha do
Oeste. Edifício centenário mas muito bem conservado, onde
diariamente embarcam e desembarcam muitas pessoas, quer para os
empregos, quer para escolas e outros assuntos, hoje menos que
antigamente devido ao aumento de transportes próprios e
alternativos. Devido aos seus bonitos e cuidados jardins, em 1944,
esta estação ganhou o 3º prémio das estações floridas, tal como
se pode comprovar através do azulejo exposto na parede lateral sul
deste edifício. Outros prémios se seguiram entre eles um primeiro.
Tem este lugar um Clube Recreativo fundado em 1929,
numas instalações arrendadas e adaptadas para o efeito. Mais tarde
sofreram uma remodelação total dando lugar a um edifício para a
prática desportiva e recreativa. Pero Negro tem por vizinho o rio Sizandro onde, nos períodos de inverno e consoante o seu caudal, ao
passarmos junto dele conseguimos ouvir o cantar das suas águas.
Muito mais haveria para dizer sobre esta aldeia mas, ao fazer esta
viagem no tempo, penso ter deixado aqui um relato do que nela poderá ser
mais interessante.
Rosa Santos
Pois gosto muito de aqui vir, sempre que há algo de novo, cá estou eu a ler e com imenso prazer.
ResponderEliminarUm bem haja a todos que nos dão estes momentos de leitura.
e conhecer os nossos arredores, que tem muito para ver.
Un forte abraço
Ana Maria
Amiga Rosa
ResponderEliminarLi esta sua bela descrição da aldeia de Pero Negro, situada aqui num cantinho deste nosso Oeste.
Na realidade, como aldeia é um lugar muito acolhedor e bonito, com um historial muito interessante. Sempre ouvi falar no "quartel general" durante as guerras de Napoleão, mas não sabia a sua história. Julgo que um edifício desses é na verdade património importante que deve figurar na nossa história, e por isso mesmo acho que deve ser preservado, ainda que a sua finalidade vá sendo alterada ao longo dos tempos.
Obrigada pelo seu minucioso trabalho e por nos revelar mais belezas deste concelho do Sobral de Monte Agraço.
Um beijinho da amiga
Lourdes.
Olá, minha querida amiga Rosa.
ResponderEliminarJá algum tempo que não tínhamos noticias suas. Parabéns por partilhar com os leitores deste blog, a informação que tem sobre a aldeia de Pero Negro.
Fui talvez umas três vezes a Pero Negro, passo por lá muitas vezes, mas desconhecia a história dessa aldeia. Eu sou natural do concelho de Torres Vedras. Conheço mal a história do concelho do Sobral. Suponho que a Rosa, também não é natural do deste concelho, mas está mais bem informada que eu. Apareça sempre que puder, já tínhamos saudades suas.
Um beijinho com muito carinho.
Até breve.
Mariana
Este texto constitui, de facto, uma bela reportagem sobre uma povoação cheia de motivos de interesse e de História. Mas parece que o progresso se está esquecendo dela: é a moribunda Linha do Oeste; são os acessos à sede do Concelho que continuam como seriam há 100 anos quando eram feitos de carros de bois; é a "saída" (e a entrada!...) na A8 que não está sendo aproveitada como pólo de desenvolvimento.
ResponderEliminarSempre me intrigou este nome. É facto que há vários Pero na nossa História (Pero Vaz de Caminha, p. ex) e que em muitas terras do País se encontram referências a Negreiros, Negrelos...Mas será mesmo essa a origem do nome?
Mais importante, todavia, que a dúvida sobre a origem do nome, é a dúvida sobre o futuro de Pero Negro. Este texto é oportuno até para nos pôr a pensar nele...
Auzendo
Gostei de ler o que Rosa Santos escreveu sobre Pero Negro.
ResponderEliminarFiquei um pouco triste de não ver mencionado o nome de Belarmino Jaime Gonçalves que tanto tem dado de si a Pero Negro.
Certamente ficará para uma outra oportunidade.
Ana Costa